Procurando emprego

Eu me considero uma pessoa produtiva. Consigo ficar estacionada por algumas horas, dias. Mas não consigo ficar parada de vez. O inferno não é quente e cheio de gente gemendo. O inferno é a falta de perspectiva. A acomodação.

Desde sempre invento coisas. Inventava brincadeiras, novas regras para jogos que estavam velhos e sempre fui boa em inventar desculpas, justificativas. Minha cabeça não pára e às vezes parece pesada demais para esses músculos mal desenhados do ombro e pescoço.

Lembro com exatidão todos os momentos em que fiquei sem trabalhar desde os 18 anos. Todos foram torturantes.

Estou em mais uma fase dessas. Numa entressafra produtiva. Pelo menos para o mercado.

Quando decidi a data para sair da Morphy, imaginava que este período pré mudança seria necessário para organizar minha vida na nova cidade, empacotar as coisas, cuidar de burocracias e detalhes. De fato está sendo assim.

Tenho tempo livre pois não fico em função da mudança todos os dias. Estou fazendo uma auto-terapia praticando o nada nesse tempo livre. Descansando. Como se depois de muito muito tempo eu finalmente tivesse férias. Não tenho um emprego pra voltar depois desse período, como nas férias tradicionais (pelo menos não ainda) mas tenho a sensação que terei sim muito trabalho pela frente.

Estou revendo meu currículo e todas as coisas que fiz. Nas entrevistas de emprego que fiz recentemente percebi que resumir minha experiência profissional num relato oral pode levar 10 chatos minutos. E isso re-su-min-do.

Durante o último mês fiquei dividida entre prestar serviço como autônoma ou ter um emprego full. A primeira alternativa vem cheia de charme: home office, café a toda hora, trabalhar de pantufas na companhia dos gatos, ouvindo a música que quisesse no volume que quisesse < — sem fones de ouvido. A segunda vem numa bandeja de prata: rotina, novas amizades, novos desafios, peculiaridades de novos clientes e projetos. Balancei.

O tempo em que estive na Morphy me viciou em trabalho em equipe depois do período sabático e itinerante da consultoria (foram quase 3 anos). Viciei também em reuniões produtivas, em pessoas legais para compartilhar pouco mais que 8 horas diárias (pouco mais?! Huhuhuhu), em happy hours, cafés, almoços…

Achei que mudar de cidade, de casa, de estado civil, de escola do Lucca podia me deixar um pouco freak sem uma rotina fixa. Pouco. Ainda mais com café à vontade. Eis que então comecei a procurar emprego. Envia email, agenda entrevista aqui, passa para a próxima fase ali, agenda nova entrevista, calcula o que seria um salário legal, aciona o power network button, pensa, espera, pensa, espera, espera…

Isso considerando a dificuldade em achar uma vaga para o meu perfil. Quase 20 anos no mercado de comunicação me deram uma puta bagagem, mas não me tornaram uma especialista. Já fiz logomarcas, campanhas políticas, licitações, folderes, outdoors, vídeos, textos, textos, textos, atendimentos, planejamentos, orçamentos. Já acompanhei produção de tudo que é coisa. Já fui cliente, já fui agência, já fui os dois ao mesmo tempo. Entrei pro mercado “digital” mesmo achando que esse nome não serve. Dei aulas. Ministrei palestras. Quis (e ainda quero) que todo trabalho que saísse de minhas mãos tivesse comprometimento com resultado.

Não penso em aposentadoria, não vejo trabalho como peso, ou karma. Trabalho pra mim é necessidade vital. Bora achar outro, agora lá pras bandas da capitar.